Na noite de 12 de setembro de 2025, por volta das 21 horas, homens em motocicleta efetuaram diversos disparos de arma de fogo nas proximidades do Acampamento Vida Nova, localizado no município de Jordânia, Baixo Jequitinhonha (MG). O estampido foi ouvido pelos moradores e registrado por câmeras de segurança, como pode ser visto neste vídeo, provocando pânico nas famílias acampadas, que temem pela própria segurança e pela continuidade da comunidade.
No dia anterior ao atentado, policiais e representantes da assistência social estiveram no acampamento por ordem judicial, com a finalidade de cadastrar as famílias. Curiosamente, apenas um dia depois dessa presença oficial, os tiros voltaram a ser disparados contra a comunidade. A sequência dos fatos levanta suspeitas de conexão entre as ações de cadastramento e a nova investida criminosa que estaria tentando intimidar a comunidade que avança na conquista dos seus direitos.
Esse ataque não é um caso isolado. Em fevereiro deste ano, mais de 15 homens fortemente armados invadiram o Acampamento Vida Nova disparando centenas de tiros, agredindo e espancando moradores. A brutalidade daquele ataque foi registrada em boletins de ocorrência, mas, mesmo após sete meses, nenhuma responsabilização efetiva foi tomada pelas autoridades. O silêncio e a omissão do poder público alimentam a sensação de impunidade, abrindo espaço para que novos crimes continuem a acontecer.


Fotos mostram a destruição causada nos ataques de fevereiro de 2025
“O que a gente espera mesmo é o trabalho das autoridades, o que gera um novo fato é a impunidade. Porque os agressores, ficando impunes, geram novos atos deles, enquanto nós, trabalhadores, ficamos de mãos atadas.” Esse relato expõe de forma clara a realidade enfrentada pela comunidade: enquanto os agressores permanecem impunes, fortalecidos pela ausência de medidas eficazes do Estado, novos ataques se repetem, colocando em risco a vida e a sobrevivência de trabalhadores e trabalhadoras que apenas buscam viver e produzir com dignidade.
Entre o ataque de fevereiro e o ocorrido agora em setembro, outras intimidações de menor escala já haviam sido registradas: pessoas encapuzadas rondando o acampamento, provocações e ofensas dirigidas aos assentados, além da presença de drones sobrevoando a área, o que levantou a preocupação de que substâncias químicas pudessem estar sendo lançadas sobre as plantações da comunidade. Tais ações, além de configurarem invasão de privacidade, reforçam a estratégia de intimidação e terror psicológico contra as famílias camponesas.
Há mais de 17 anos, o Acampamento Vida Nova ocupa uma fazenda que estava abandonada, transformando-a em terra viva e fértil. As famílias ergueram suas casas, cultivam alimentos saudáveis em sistema agroecológico e abastecem feiras em Jordânia e em outras cidades da região. O que se constrói ali é dignidade, soberania alimentar e uma prova concreta da função social da terra. Ainda assim, as famílias seguem sob ameaça constante, vítimas de agressões que buscam desarticular um processo legítimo de luta pela terra.
O Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas de Minas Gerais (PPDDH-MG) acompanha com preocupação a escalada da violência e as ameaças contra as lideranças da região. A Comissão Pastoral da Terra (CPT/MG), o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jordânia e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Minas Gerais (FETAEMG), Regional do Jequitinhonha, também reforçam a urgência de medidas concretas para garantir a segurança da comunidade e a regularização definitiva do território ocupado.
Denunciar é proteger. É preciso amplificar a voz das famílias do Acampamento Vida Nova e cobrar providências imediatas das autoridades responsáveis, para que vidas não sejam ceifadas pela omissão e pela violência de jagunços a serviço de interesses privados.
