Meses após os graves ataques sofridos pelos moradores do Acampamento Vida Nova, no município de Jordânia (MG), a comunidade segue reafirmando, no cotidiano, sua resistência. Se historicamente o cenário é marcado por violência e insegurança, também é possível enxergar, a cada dia com mais nitidez, a força de um modo de vida baseado na coletividade, no trabalho e no uso sustentável da terra.
No início de abril de 2026, a equipe do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) retornou ao território em articulação com a realização de uma visita institucional da Comissão de Justiça ao município, composta por desembargadores, juízes, representantes do Ministério Público e da Defensoria Pública da União. A ida ao Acampamento Vida Nova teve como objetivo acompanhar a situação e condições da comunidade, em um momento estratégico de incidência institucional no conflito.
A base da produção local é a mandioca, símbolo da agricultura tradicional e da autonomia alimentar. No próprio acampamento, a raiz é beneficiada em uma casa de farinha construída no assentamento pelos próprios moradores. Mais do que um espaço produtivo, a estrutura representa um ponto de encontro, de troca de saberes e de fortalecimento comunitário. A farinha produzida ali não atende apenas ao consumo interno: parte da produção é comercializada no mercado local, garantindo renda às famílias.
Além da mandioca, o Acampamento Vida Nova mantém uma produção diversificada, voltada principalmente para a subsistência. Banana, abóbora, milho, feijão e até cacau fazem parte do cultivo. A criação de aproximadamente 30 cabeças de gado também contribui para a segurança alimentar das famílias, sendo destinada majoritariamente ao consumo interno.
Essa diversidade produtiva não é apenas uma estratégia econômica: ela reflete uma relação equilibrada com o território. Diferente do modelo predatório de grandes latifúndios e monoculturas, a comunidade desenvolve práticas agrícolas que respeitam os ciclos naturais, preservam o solo e protegem as águas. A região é rica em nascentes e áreas preservadas, um patrimônio ambiental que vem sendo mantido graças ao cuidado cotidiano dos moradores.
A presença da Comissão de Justiça no território representou um marco importante para a cidade. Foi a primeira vez que o território recebeu uma comitiva dessa natureza, e resultou em um encontro significativo entre instituições e comunidade. A agenda possibilitou a escuta direta dos moradores, a verificação in loco das condições do acampamento e a mediação dos conflitos do local. Como resultado, houve uma redução perceptível das tensões no território, ao mesmo tempo em que se ampliou a pressão institucional sobre os supostos proprietários, que não conseguiram apresentar de forma consistente a documentação que alegavam possuir. A visita fortaleceu a legitimidade da comunidade, deu visibilidade às violações anteriormente denunciadas e reafirmou a importância da atuação articulada entre organizações sociais e órgãos do sistema de justiça na defesa de direitos no campo.
Nesse contexto, o papel das lideranças locais é fundamental. Tereza Pereira Lima, defensora incluída no PPDDH e que também atua como presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, e José Martins de Souza, Presidente da Associação dos Moradores, ambas lideranças do acampamento. Suas atuações têm sido centrais na articulação de políticas públicas e no fortalecimento da comunidade.
A história recente do Acampamento Vida Nova não permite esquecer as violações sofridas. Os ataques armados denunciados no ano passado deixaram marcas profundas. No entanto, o que se vê hoje é uma comunidade que não se deixou paralisar pelo medo. Ao contrário, segue cultivando a terra, fortalecendo vínculos e afirmando, na prática, que outro modelo de desenvolvimento rural é possível.
Entre a farinha que sai da casa de produção, as roças diversificadas e as nascentes preservadas, o Vida Nova mostra que resistir também é plantar. E que, mesmo diante das ameaças, a vida insiste em florescer.
